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Author(s): Marta Cecília Duarte Torres
Title: A Última Cidade
Issue Date: 2014-07-21
Abstract: I want, when I die, to be buriedClose to the naïve and meek Ocean,Shall it pray at midnight on a hurt voiceThe final prayers of my rest ...1Architecture for the absence. An eternal farewell, bounded by several memories. Houses ofthe ethereal, with spaces for the faithful departed and for the living. Connection between realityand alienation, transcendence. Paths of meditation and recollection, filled with symbolism anddevotion, inducing us relentlessly toward the imposed celestial ending: the confrontation withdeath.The relationship between man and the cessation of life is the sum expression of funeraryarchitecture. A drawing inspired by death, its rituals and secrets, understood and conceived as anintimate space capable of soothing the healing process of a sore soul, by perpetuating memoriesthat will build the city itself. Currently, we witness the desecration of our culture, mirrored inthe process of funerary architecture. The attempt to hide the impending explosion of pain andsuffering due to the remembrance of a sudden loss tries to convert these spaces into neutrallocations, minimizing the emotional shock - a comprehensive rejection of that painful process.As if death itself would disappear by this procedure of building spaces that reveal the effort toalienate the consciousness when facing death; the attempt to distance the impact felt by thisconfrontation. Architecture blurs death by distracting the living from the harsh reality of passingaway. It smooths the difficulty related to the ceremonial rituals that preceed the exumation.2In short, it is all about an emotional geometry. Modern men wished to omit the presence ofdeath in their daily lives, understanding it as a transgression and allying it to oblivion. Nowadayswe witness the growing emergence of new mortuary complexes that present themselves as aresponse to this ultimatum. We found them in a rather quiet position towards the inaccessibleextremism of purging death away from our daily lives: they define aseptic and precise lines,recurring to the accuracy of statements regarding the function. However, they are endowedwith great symbolic expression; by dignifying the space of significance without abandoning theomnipresence of death nor admitting it across its stern expression. A balanced equilibrium allows51 ESPANCA, Florbela. A minha morte in Poesia Completa de Florbela Espanca, Lisboa: Dom Quixote, 2002, p.55. (free translation)2 MASSAD, Fredy; YESTER, Alicia Guerrero. Cemitérios contemporâneos. Entre a vida e a morte. Revista on-line Vitruvius- Arquitextos, índice 060.02. Maio, 2005.(free translation)A ÚLTIMA CIDADE67us to live with this, enabling us to quietly visit those spaces, hoping that its neutral developmentcontributes to the construction of our own memories.In the end, death contributes to this subject with a double faceted presence, a paradox thatcomes down to the survivors by providing a dualistic reading: the hostility of death is exercisednot against the deceased, to whom a better luck is given, but against those who mourn; notannihilating them, but letting them live, social decapitated body, beings deprived of support anddirection. This ambivalence reflects a deep spiritual division, between two chronologically distinctyet discreet attitudes: on one hand, the initial shock of mourning, during which death can only bestepmother. On the other, it appears as a retreat imposing religious reflection, inducing ourselvesto extract a positive aspect - albeit limited to a single recipient - of a situation and comparing(within the limits and under certain strict conditions) death to a caring mother.33 BRAET, Herman; VERBEKE, Werner. A Morte na Idade Média. São Paulo: EDUSP, 1996, p.254. (free translation)
Description: Eu quero, quando morrer, ser enterradaAo pé do Oceano ingénuo e manso,Que reze à meia-noite em voz magoadaAs orações finais do meu descanso...1Arquitetura para a ausência. Uma despedida eterna, memórias e recordações. Casas do etéreo,espaços destinados aos mortos e vividos pelos vivos, conexão da realidade com alienação etranscendência. Percursos de meditação e recolhimento repletos de simbolismo e devoção,induzindo-nos no implacável rumo da final imposição celeste: o confronto com a morte.A relação do Homem Ocidental com a cessação da vida é a suma expressão da arquiteturafunerária. Um desenho para a morte, um espaço íntimo capaz de abreviar o processo decicatrização da dor, perpetuando memórias que constroem a própria cidade. Presentementeassistimos à dessacralização da nossa cultura, espelhada no processo da arquitetura funerária.A tentativa de esconder a explosão iminente de dor e sofrimento, da lembrança compadecidada perda, opera a conversão destes espaços em lugares neutros, passivos, minimizadores dochoque emocional, numa recusa quase compreensiva desse processo. Como se com esseprocedimento a própria morte desaparecesse, constroem-se lugares denunciadores do esforçode alienação da consciência frente à morte, de afastar o impacto que implica se defrontar comela. A arquitetura esfumaça a morte, distrai os vivos da realidade do passamento e amortece adificuldade de acompanhar o translado do corpo inerte pelos rituais prévios à exumação.2 Emsuma, trata-se de uma geometria emocional. O homem moderno desejou simplesmente omitira presença da morte no seu quotidiano, entendendo-a como uma transgressão e aliando-a aoesquecimento.Atualmente observamos um crescente aparecimento de novos complexos mortuários que seapresentam como resposta a este ultimato. Encontramo-los numa posição serena face aointerdito extremista da expurgação da morte no nosso quotidiano: definem espaços laicos easséticos, que recorrem à precisão de linhas assertivas no que respeita à função. No entanto,são dotados de grande expressividade simbólica; dignificam o espaço de significância, nãoabandonando a omnipresença da morte nem a admitindo em toda a sua severa expressão. Um1 ESPANCA, Florbela. A minha morte in Poesia Completa de Florbela Espanca, Lisboa: Dom Quixote, 2002, p.55.2 MASSAD, Fredy; YESTER, Alicia Guerrero. Cemitérios contemporâneos. Entre a vida e a morte. Revista on-line Vitruvius- Arquitextos, índice 060.02. Maio, 2005.A ÚLTIMA CIDADE 12equilíbrio balanceado permite-nos conviver com esta, consentindo-nos percorrer os espaçoscom tranquilidade na esperança que a sua elaboração neutra contribua para a construção dasnossas próprias memórias.No final, a morte contribui para este ensaio com uma presença duplamente facetada, umparadoxo que se resume para os sobreviventes com uma prestação dualista: a hostilidade damorte exerce-se não contra o defunto, que ela introduz em melhor sorte, mas contra aquelesque o lamentam, não os aniquilando, mas deixando-os viver, corpo social decapitado, seresprivados de suporte e de direção. Essa ambivalência reflete no fundo uma divisão, nos espíritos,entre duas atitudes cronologicamente distintas senão discretas: de um lado, o choque inicialdo luto, durante o qual a morte não pode ser senão madrasta, de outro, o recuo que impõe areflexão, induzindo a extrair um aspecto positivo - ainda que limitado a um só destinatário - deuma situação e tornando, no limite e sob certas condições rigorosas, a Morte semelhante a umamãe solícita.33 BRAET, Herman; VERBEKE, Werner. A Morte na Idade Média. São Paulo: EDUSP, 1996, p.254.
Subject: Artes
Arts
TID identifier : 201545730
URI: http://hdl.handle.net/10216/82519
Document Type: Dissertação
Rights: openAccess
License: https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/
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