Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10216/79538
Author(s): Fernandes, Mário Gonçalves
Mendes, Rui
Title: Dicotomias urbanas em Moçambique: cidades de cimento e de caniço
Issue Date: 2012
Description: As urbes moçambicanas são frequentemente cidade duais, coexistindo numa mesma cidade duas realidades morfotipológicas claramente distintas, temporal e tecnicamente diferenciáveis, mas interdependentes e imbricadamente ligadas entre si. A cidade de cimento é a cidade herdada do poder, uma cidade para aqueles que dominavam e onde assentava a estrutura administrativa do território. Como o nome indica, uma cidade edificada em materiais nobres, perenes, e estruturada formalmente de forma planeada e, pelo menos pretensamente, mais racional. No entanto, fruto do crescimento económico e da consequente demanda de mão-de-obra para o sector industrial que se instalava nas cidades moçambicanas, nasceram nas franjas dessas urbes outras cidades ou novas partes da mesma cidade, improvisadas pelas gentes provenientes do hinterlandpróximo e do interior mais longínquo, que trazem modos de vida próprios e ancestrais e os incorporam no espaço urbano. Esses novos espaços, bairros originalmente "espontâneos" que pelas suas dimensões superam hoje a cidade formal de cimento num continuum urbano aparentemente caótico e improvisado, são construídos em materiais perecíveis, frequentemente recolhidos da natureza, como a madeira, o capim e o caniço que lhes dá o nome. Tecnicamente e morfologicamente opostas, estas duas faces da mesma moeda estabeleceram relações de interdependência muito fortes: de um lado a cidade de cimento que necessita da mão-de-obra daqueles que habitam na cidade de caniço; nesta, aqueles que demandam a cidade formal para assegurar o seu modo de vida. A independência de Moçambique alteraria a perspectiva com que os poderes encaravam a cidade de caniço. De espaços tolerados mas não reconhecidos e sem direitos de propriedade, eternamente suspensos em terrenos muitas vezes impróprios para habitação, passou-se para uma fase em que essasáreas são reconhecidas como parte integrante da cidade, encetando-se, em consequência, políticas de valorização e organização dos espaços e das pessoas, frequentemente com o apoio de organismos internacionais.As alterações políticas, a guerra, os maus anos agrícolas provocaram em Moçambique um intenso êxodo rural, do qual decorreu o crescimento exponencial dos bairros de caniço, levando a que várias das cidades moçambicanas sejam hoje maioritariamente constituídas pelas áreas de caniço, que envolvem a cidade formal e por vezes ocupam espaços públicos livres (praças, jardins,...) do coração urbano. Fenómeno singular da evolução, contacto e partilha de espaços dá-se em anos mais recentes, quando o próprio caniço, nas principais metrópoles como Maputo e a Beira, conhece profundas alterações na sua estrutura. A sinergia entre espaços e gentes provoca a transformação do caniço tradicional/formal, de maeriais perecíveis, organização orgânica e edificado vernacular tradicional, consoante as origens/etnias dos povos que aí se estabeleciam, em espaços organizados, com os materiais perecíveis a serem substituídos por materiais mais perenes e com a imagem do edificado a emular os modelos da cidade de cimento. O caniço tradicional é, assim, remetido para as áreas mais afastadas do contacto com a cidade de cimento, embora subsista nas áreas de menor dinamismo económico, particularmente nas cidades desegunda linha. (...)
Subject: Humanidades
Call Number: 102790
URI: http://hdl.handle.net/10216/79538
Source: Morfologia urbana nos países lusófonos: actas da 2ª conferência
Document Type: Artigo em Livro de Atas de Conferência Internacional
Rights: openAccess
License: https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/
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